só quatro metades fazem um inteiro

um belo dia de verão combina com semáforos apagados e bélicas nuvens ao som da lua movendo a vaguidão.
e é quando nós ficamos simplesmente sem saber se ir, voltar ou fechar os olhos durante o beijo gelado da cerveja, adiantaria para silenciar aquela música que soa tão tenebrosa na escuridão. me disseram que não, certa vez, mas eu: “mudar de ideia não é algo tão ruim quando na hora errada”, e vazei (deixando a gorjeta dela e do garçom: dois cigarros e duas cédulas amassadas). doravante será tudo sempre mais ou menos nada. meio nada e meio tudo. fui a pé pra casa.

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mais uma outra vez

Ei-la deitada classicamente
e o violão de novo ausente
mas as pernas aguardavam estendidas

desta vez um prelúdio convidativo
substituía o jazz convencional
e o ballet (sem cordas) se fez visceral

abandonando um bocado de coisas

Esmagarei meu cérebro
Destroçarei o vosso
E farei uma deliciosa sopa
De molho cefalorraquidiano

Só assim poderemos enfim
nos deleitar plenamente

nariz escorrido (corre neguinho)

corra, meu filho
leve um casaco
não leia as placas
desapareça na névoa
perca-se de vista
passe ao meu lado
não me veja
mas beije Mnemosyne
admoeste-a e finalmente perceba
que tudo é passado
inclusive o Fim
depois volte
e me veja morta
sem começo nem meio
pois este não é nosso destino
mas apenas um sim
próximo a ser ultrapassado
corra, meu filho.

abraço e adeus

deslize pelo bigode
e beije meu umbigo
me defenestre
mas não me cuspa na cara

honestidade sempre
é uma farsa e lembre-se
tome bastante cuidado
com minha testa suada

tergiversos

maldita madrugada
que mesmo meio escondida
expõe tudo, escondidinha
debaixo das cobertas…

diluindo amores
em preto e branco
diluindo tesão
divagação e desvario

é… mas um dia,
quem sabe, se desdobrará
pra mim e me dirá,
escondida, quem sabe

dissimulada e quietinha,
à meia-luz, à meia-voz,
que lá vem o sol
e não me deseja mais

lembrancinha

foi no dia em que fiquei invisível
não havia sons
nem palavras
muito menos gestos
apenas ladrilhos se movendo
uniformemente

e disfarcei tudo
com aquele velho sorriso azulado:
esqueci a filosofia de uma vez por todas